18 Şubat 2014 Salı

A palavra que age

Por Luiz Gonzaga Lopes

O prêmio Açorianos de Literatura 2013 entregue na segunda-feira, dia 9, à noite, no Renascença, teve o signo da palavra que age e de uma certa teoria dos ciclos dos 20 anos da premiação. A palavra que age é a busca incessante de um dos autores premiados com o Livro do Ano, a jornalista e cronista Eliane Brum. Com o seu “A Menina Quebrada” (Arquipélago), delicado, intenso, profundo, epifânico e outros tantos adjetivos e descrições que um livro humanista de crônicas pode ter, que arrebata os leitores e a própria autora – Eliane foi uma das vencedoras do Livro do Ano do Açorianos. Ela dividiu o prêmio com “Terra Gaúcha e Artinha de Leitura”, de João Simões Lopes Neto, editado por Luís Augusto Fischer (Belas-Letras), outro esforço de garimpo deste mestre e patrono, já descrito como pescador neste blogue, de duas obras escritas pelo autor de “Contos Gauchescos”, entre 1904 e 1906, e que tinham sido dadas como perdidas. A palavra agiu, resistindo ao tempo.
Eu falei de ciclos nesta premiação do Açorianos e não poderia deixar de dizer que Luís Augusto Fischer, patrono desta 59ª Feira do Livro de Porto Alegre, encerrada em 15 de novembro, ao receber o prêmio de Livro do Ano, dividido com Eliane, disse, com fala de letras maiúsculas, que o prêmio o fez ter orgulho, pois era coordenador do Livro e Literatura na primeira edição em 1993 (e fez menção a Margarete Moraes, secretaria de Cultura da época, hoje representante do Ministério da Cultura, que entregou o prêmio junto com o vice-prefeito Sebastião Melo e o secretário de Cultura, Roque Jacoby). Mas Fischer, com aquele jeito germânico de Novo Hamburgo, tentou esconder o choro, mas não conseguiu, e pode falar nostalgicamente, da saudade de Luiz Sérgio Metz, o Jacaré, e de Jorge Pozzobom. “É uma lembrança do coração”, disse com cumulus nimbus nos olhos e batendo no peito. Era a palavra agindo.  
Em seu discurso de agradecimento e nas entrevistas, Eliane Brum exaltou a busca por ser “a palavra que age”, pois ela estava agindo. Eliane havia sido a autora revelação em 1993, na primeira edição do Açorianos, em 1993, pelo livro-reportagem “Coluna Prestes – O avesso da lenda”. “O livro tinha sido recebido com extremo preconceito pelo tema, pelo personagem, mas aquele reconhecimento foi essencial para que eu continuasse buscando ser a palavra que age e passasse por inúmeras transformações até receber o prêmio por este livro ‘A Menina Quebrada’. Ganhar o prêmio neste momento bem importante da minha vida é bastante significativo”, disse Eliane. As (des)identidades de Eliane que estão contidas nas 64 colunas publicadas na revista Época durante os últimos quatro anos. Para desenvolver as suas colunas, Eliane disse que precisa de três coisas: “estar tomada pelo assunto, acreditar ter algo a dizer o que ainda não foi dito, e ter estudado muito o tema antes de escrever”. A palavra age pela profundidade.
Com as suas colunas, Eliane não deixa de pertencer a uma estirpe parecida com a dos integrantes da coluna liderada por Luís Carlos Prestes, nos anos 20. A cronista identifica um tema, se debruça sobre ele, denuncia a injustiça ou o preconceito contido nele, mas não julga, só dissemina uma ideia que tem predominância humanista, propõe um novo olhar sobre o tema, “quero que o leitor possa ver o mundo de outros ângulos”. E assim caminha o livro “A Menina Quebrada”. Em “Elas Não São Gays”, Eliane discute e propõe um novo olhar sobre o relacionamento entre duas mulheres, chamadas Carla e Michele, que não querem ser chamadas de “homossexuais”, não consideram que a opção deva ser guetificadora. Uma reportagem aberta que leva Eliane a refletir sobre ser um rótulo, homo, hétero ou bi: “Sou uma mulher às vezes masculina, às vezes feminina, que gosta de homens às vezes femininos, às vezes masculinos, e que algumas vezes se sente atraída por mulheres às vezes femininas, às vezes masculinas”. A palavra age, não julga.
Em “A Menina Quebrada”, a cronista tem uma conversa imaginária com a afilhada, Catarina, sobre estar quebrada, ser quebrada, quando a menina se depara com uma outra com os 12 anos com a perna engessada. O objeto da crônica passa a ser epifânico-psico-filosófico, no que não há nada demais. Reparem bem neste parágrafo: “O que eu poderia dizer a você, Catarina? A verdade? A verdade você já sabia, você tinha acabado de descobrir. As pessoas quebram. Até as meninas quebram. E, se as meninas quebram, você também pode quebrar. E vai, Catarina. Vai quebrar. Talvez não a perna, mas outras partes de você. Membros invisíveis podem fraturar em tantos pedaços quanto uma perna ou um braço. E doer muito mais. E doem mais quando são outros que quebram você, às vezes pelas suas costas, em outras fazendo um afago, em geral contando mentiras ou inventando verdades. Gente cheia de medo, Catarina, que tem tanto pavor de quebrar, que quebram outros para manter a ilusão de que são indestrutíveis e podem controlar o curso da vida. E dão nomes mais palatáveis para a inveja e para o ódio que os queima. Mas à noite, Catarina, à noite, eles sabem”.  A palavra age e desconcerta.
Em uma conversa logo depois da entrega do prêmio, Eliane me disse que “é a história que encontra as suas próprias palavras”. Ela confessou mais. Disse que antes de escrever, ela deve desconfiar da sua própria escrita. “A história escolhe de que forma ela se apresenta para o mundo. Eu sou a intermediária para conduzir a história, a crônica, a coluna, na melhor forma que ela possa se expressar”. A profundidade desta relação com a crônica não é pouca coisa. Me lembro em uma entrevista que me concedeu nos anos 90, que Charles Kiefer dizia, a partir de autores sul-americanos como Jorge Luis Borges e Julio Cortázar,  que o conto tem o seu momento de “epifania”, pois Eliane tem uma relação epifânica com a crônica. A palavra age e revela outras visões de mundo.
Em outro tema polêmico, a cronista não julga, apenas apresenta o tema e nos leva a pensar com menos julgamentos sobre os pedófilos na crônica “Pedófilo é Gente?”. Eles que são considerados monstros pela sociedade aparecem nesta colunas a partir de informações de abusadores que foram abusados e não tiveram o tratamento adequado e acabaram por repassar o mal sofrido para uma criança mais próxima. Personalidades do mundo real como Lula, Dilma, Haddad, Eike Batista ou do literário como Sherazade e Lisbeth Salander ou filmes como “A Garota Ideal” e “O Lenhador” não escapam do olhar escaneador de Eliane. A palavra age e inclui os leitores.
Eliane e Fischer levaram R$ 5mil cada um, mas ouso dizer que o valor é importante, mas neste caso não é tudo. Os demais prêmios foram todos bastante emocionantes e surpreendentes. O Açorianos de Criação Literária foi para Marcelo da Silva Rocha, que recebeu R$ 10 mil e terá a obra “Ocupa Porto Alegre e Outros Contos” editada pela Editora da Cidade. Na categoria Narrativa Longa, o troféu Açorianos foi para Lélia Couto Almeida, por “O Amante Alemão”, IEL/Corag. No Conto, o livro “Recortes para Álbum de Fotografia Sem Gente” (Editora Modelo de Nuvem), da promissora Natalia Borges Polesso, foi o melhor livro, deixando para trás a pungente obra “Essa Coisa Brilhante que é a Chuva“, de Cíntia Moscovich (Record) que havia conquistado o Portugal Telecom, na categoria conto, na semana passada, em São Paulo.
Em Ensaio de Literatura e Humanidades, a premiação foi para“Anarquia na Passarela”, de Daniel Rodrigues (Editora Dublinense). No Infantil, a delicada e lírica obra “Conchas”, de Hermes Bernardi Jr. (Editora Edelbra) foi a vencedora, com a Infanto-Juvenil ficando para “Filho de Peixe, de Marcelo Carneiro da Cunha, Editora Projeto. Na Poesia, o primeiro prêmio ficou com “Aqui Jasmim”, de Caroline Milman (Modelo de Nuvem). A melhor capa foi de Samir Machado de Machado pelo livro “Monstros Fora do Armário”, de Flávio Torres (Não Editora).
Hermes Bernardi fez um dos discursos mais longos e emocionados prêmio em literatura infantil. “A gente diz que não deseja algo quando no fundo quer muito. Eu sempre desejei ganhar este prêmio, como reconhecimento dos meus pares, para não esquecermos da literatura infantil, que é a primeira de todas as literaturas. A delicadez foi premiada com este troféu para Conchas”, observou. A palavra agiu durante toda a noite pela emoção ou por algum tipo de verdade daqueles que foram vencedores ou que dedicaram suas palmas aos escolhidos.

VENCEDORES DO AÇORIANOS 2013
Livro do Ano: A MENINA QUEBRADA, de Eliane Brum, Editora Arquipélago e TERRA GAÚCHA E ARTINHA DE LEITURA, de Luís Augusto Fischer, Editora Belas-Letras.
Prêmio Açorianos de Criação Literária: OCUPA PORTO ALEGRE E OUTROS CONTOSde Marcelo da Silva Rocha
Conto: RECORTES PARA ÁLBUM DE FOTOGRAFIA SEM GENTE, de Natalia Borges Polesso, Editora Modelo deNuvem.
Crônica: A MENINA QUEBRADA, de Eliane Brum, Editora Arquipélago.
Ensaio de Literatura e Humanidades: ANARQUIA NA PASSARELA, de Daniel Rodrigues, Editora Dublinense.
Especial: TERRA GAÚCHA E ARTINHA DE LEITURA, de Luís Augusto Fischer, Editora Belas-Letras.
Infantil: CONCHAS, de Hermes Bernardi Jr., Editora Edelbra.
Infanto-Juvenil: FILHO DE PEIXE, de Marcelo Carneiro da Cunha, Editora Projeto.
Narrativa Longa: O AMANTE ALEMÃO, de Lélia Couto Almeida, IEL/Corag.
Poesia: AQUI JASMIM, de Caroline Milman, Editora Modelo de Nuvem.
Capa: MONSTROS FORA DO ARMÁRIO, capa de Samir Machado de Machado, Não Editora.
Projeto Gráfico: TERRA GAÚCHA E ARTINHA DE LEITURA, projeto gráfico de Celso Orlandin Júnior, Editora Belas-Letras.
Destaques Literários: Projeto ADOTE UM ESCRITOR, Câmara Rio-Grandense do Livro e Secretaria Municipal de Educação.Programa de TV DIREITO E LITERATURA, TV Unisinos.

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